{"id":943,"date":"2022-07-15T12:11:59","date_gmt":"2022-07-15T15:11:59","guid":{"rendered":"https:\/\/sallesribeiro.com\/?p=943"},"modified":"2022-07-18T09:12:44","modified_gmt":"2022-07-18T12:12:44","slug":"como-a-policia-civil-de-sp-quebrou-a-cara-ao-indicar-um-quarto-suspeito-das-mortes-de-bruno-e-dom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/como-a-policia-civil-de-sp-quebrou-a-cara-ao-indicar-um-quarto-suspeito-das-mortes-de-bruno-e-dom\/","title":{"rendered":"Como a Pol\u00edcia Civil de SP quebrou a cara ao indicar um \u2018quarto suspeito\u2019 das mortes de Bruno e Dom"},"content":{"rendered":"<p>Reportagem de <a href=\"https:\/\/ponte.org\/colaborador\/jeniffer-mendonca\/\">Jeniffer Mendon\u00e7a<\/a>, para a Ponte Jornalismo, que contou com a contribui\u00e7\u00e3o do s\u00f3cio&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/ACoAAAVS8pIBnDiygyPNP4gBOrcKJoazUuKrngY\">Bruno Salles Ribeiro<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"500\" src=\"https:\/\/sallesribeiro.com\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/image-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-944\" srcset=\"https:\/\/sallesribeiro.com\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/image-3.png 768w, https:\/\/sallesribeiro.com\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/image-3-300x195.png 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption><em><sub>Foto: Facebook\/Roberto Monteiro<\/sub><\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Um homem, Gabriel Dantas Pereira, 26, procurou policiais militares na Pra\u00e7a da S\u00e9, centro da capital paulista, dizendo que havia participado do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, ocorrida no Vale do Javari, no Amazonas, a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Antes de se perguntar por que um cidad\u00e3o se entregaria t\u00e3o longe, t\u00e3o voluntariosamente, num lugar conhecido pela presen\u00e7a dos mais exc\u00eantricos populares como a Pra\u00e7a da S\u00e9, ainda na manh\u00e3 do dia 23 de junho a Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo j\u00e1 havia divulgado foto e v\u00eddeo do homem apresentando-o como o \u201cquarto suspeito\u201d das mortes, mesmo sem qualquer confirma\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal do Amazonas, que investiga o crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/twitter.com\/RBandeirantes\/status\/1540027267119812608\" target=\"_blank\">\u00e0 R\u00e1dio Bandeirantes<\/a>&nbsp;naquela manh\u00e3, o delegado Roberto Monteiro, da Seccional Centro, falou como se estivesse certo da presen\u00e7a de Gabriel na cena do crime. \u201cEle (Gabriel) estava junto na lancha voadora de onde foram disparados os tiros contra o ambientalista e o jornalista ingl\u00eas, e depois ele ficou respons\u00e1vel por esconder os pertences das v\u00edtimas no meio da mata. Ele fugiu primeiro para Roraima e depois para S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na coletiva convocada \u00e0 tarde, disse de forma menos assertiva que \u201c\u00e9 uma vers\u00e3o que tem fundamento, ele realmente \u00e9 de Manaus, ele relata com muita riqueza de detalhes o que ele fez durante o per\u00edodo em que foi at\u00e9 Atalaia do Norte\u201d. Por\u00e9m, nenhum jornalista teve permiss\u00e3o de fazer perguntas.<\/p>\n\n\n\n<p>O depoimento de Gabriel foi colhido pela delegada do 2\u00ba DP (Bom Retiro) Maria Cec\u00edlia Castro Dias, que tamb\u00e9m pediu a pris\u00e3o tempor\u00e1ria dele ao Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo, que acabou encaminhando o caso para a comarca de Atalia do Norte, no Amazonas. Na coletiva, n\u00e3o proferiu nenhuma palavra. Quem tomou a frente para fazer declara\u00e7\u00f5es \u00e0 imprensa foi Monteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O delegado tem aparecido com frequ\u00eancia em reportagens por conta das incurs\u00f5es da Pol\u00edcia Civil na regi\u00e3o da Luz, conhecida de forma pejorativa de \u201cCracol\u00e2ndia\u201d, como parte da Opera\u00e7\u00e3o Caronte \u2014 batizada com o nome do personagem que, de acordo com com a mitologia grega, era o barqueiro que conduzia as almas para o mundo dos mortos mediante pagamento \u2014, deflagrada em junho de 2021 e que ainda faz a\u00e7\u00f5es no centro da capital paulista. Nos v\u00eddeos e postagens em seu Instagram, menciona que dependentes qu\u00edmicos precisam de acolhimento e cuidado, mas j\u00e1 se referiu a eles como \u201cmortos-vivos\u201d e&nbsp;<a href=\"https:\/\/ponte.org\/policia-volta-a-fazer-operacao-na-cracolandia-de-sp\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">deu pouca import\u00e2ncia a epis\u00f3dios de viol\u00eancia de agentes contra pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua durante as fases da opera\u00e7\u00e3o, como denunciou a&nbsp;<strong>Ponte<\/strong><\/a>&nbsp;e mencionou que a morte de&nbsp;<a href=\"https:\/\/ponte.org\/pm-mata-homem-negro-em-situacao-de-rua-no-centro-de-sao-paulo-segundo-testemunha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Raimundo Donato Rodrigues Fonseca J\u00fanior<\/a>, que estava em situa\u00e7\u00e3o de rua, tinha depend\u00eancia qu\u00edmica e foi baleado por policiais civis do Grupo Armado de Repress\u00e3o a Roubos e Assaltos (Garra), foi uma \u201ca\u00e7\u00e3o isolada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como recompartilhou a foto de Gabriel com dados pessoais postada pelo apresentador do programa Cidade Alerta, da Record TV, Luiz Bacci, seu perfil no Facebook com mais de 18 mil seguidores tamb\u00e9m cont\u00e9m fotos de suspeitos, com divulga\u00e7\u00e3o de RG, que foram presos por tr\u00e1fico de drogas durante a Opera\u00e7\u00e3o Caronte. Delegado h\u00e1 36 anos, j\u00e1 foi&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/divulgacandcontas.tse.jus.br\/divulga\/#\/candidato\/2016\/2\/62030\/250000040747\" target=\"_blank\">candidato pelo partido Solidariedade a vice-prefeito de Bariri<\/a>, no interior paulista, nas elei\u00e7\u00f5es de 2016, munic\u00edpio onde seu pai, Roberto Monteiro de Andrade, atuou como delegado nos anos 1960 e outros parentes ocuparam cargos do Executivo, como descreveu em seu&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20190602155314\/http:\/\/delegadorobertomonteiro.com.br\/perfil-tradicao.php\" target=\"_blank\">site<\/a>. N\u00e3o se candidatou em nenhuma outra elei\u00e7\u00e3o, mas&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/BpchLmrBY0X\/\" target=\"_blank\">apoiou publicamente a campanha \u201cBolsodoria\u201d no pleito de 2018<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O comportamento do jornalismo n\u00e3o foi melhor do que o da pol\u00edcia. A&nbsp;<strong>Ponte<\/strong>&nbsp;foi o \u00fanico ve\u00edculo a apontar essas contradi\u00e7\u00f5es e questionar sobre provas \u00e0 Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo. Outros noticiaram a informa\u00e7\u00e3o como se fosse um fato comprovado. \u201cQuarto suspeito da morte de Bruno e Dom \u00e9 preso em S\u00e3o Paulo\u201d,&nbsp;<a href=\"https:\/\/noticias.r7.com\/brasilia\/quarto-suspeito-da-morte-de-bruno-e-dom-e-preso-em-sao-paulo-23062022\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">soltou o R7<\/a>. Na&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2022\/06\/policia-de-sp-prende-outro-suspeito-do-assassinato-de-bruno-e-dom.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Folha de S. Paulo<\/a>, a chamada era \u201cPol\u00edcia de SP prende outro suspeito do assassinato de Bruno e Dom\u201d. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/extra\/2022\/06\/23\/4%C2%BA-suspeito-de-matar-Dom-e-Bruno-se-entrega-%C3%A0-pol%C3%ADcia-em-SP\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Nexo<\/a>&nbsp;disse que \u201c4\u00ba suspeito de matar Dom e Bruno se entrega \u00e0 pol\u00edcia em SP\u201d. O jornal&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/politica\/quarto-suspeito-de-participar-do-assassinato-de-bruno-e-dom-e-preso-homem-se-entregou-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Estado de S\u00e3o Paulo<\/a>&nbsp;seguiu na mesma toada: \u201cBruno e Dom: quarto suspeito de participar do assassinato se entrega e \u00e9 preso em SP\u201d. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/noticia\/2022\/06\/23\/homem-se-apresenta-a-policia-de-sp-dizendo-que-participou-dos-assassinatos-de-bruno-pereira-e-dom-phillips-no-am.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">G1<\/a>&nbsp;foi mais cauteloso e se ateve aos fatos: \u201cHomem se apresenta \u00e0 pol\u00edcia de SP dizendo que participou dos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips no AM\u201d. V\u00e1rios desses ve\u00edculos expuseram fotos e v\u00eddeos do \u201csuspeito\u201d, e a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bandnewsdifusora.com.br\/quarto-suspeito-de-envolvimento-nas-mortes-de-dom-phillips-e-bruno-e-preso-em-sp\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Band News<\/a>&nbsp;ainda publicou uma foto com os dados pessoais dele, incluindo CPF.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Vendendo fuma\u00e7a<\/h4>\n\n\n\n<p>Falsas confiss\u00f5es volunt\u00e1rias s\u00e3o um fen\u00f4meno conhecido pelas pol\u00edcias de todo o mundo que trabalham com crimes que ganham destaque na m\u00eddia.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.latimes.com\/archives\/la-xpm-1996-03-25-mn-51081-story.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Nos Estados Unidos<\/a>, em 1932, cerca de 250 pessoas confessaram que haviam sequestrado e matado o beb\u00ea do aviador Charles Lindbergh. A morte da jovem Elizabeth Short, conhecida como D\u00e1lia Negra, em 1947, que inspirou filmes, s\u00e9ries, livros e quadrinhos, levou a cerca de 500 falsas confiss\u00f5es volunt\u00e1rias ao longo de anos. Diferente do que a pol\u00edcia de S\u00e3o Paulo fez na semana passada, nesses dois casos as pol\u00edcias dos EUA esperaram obter provas reais antes de sair divulgando que haviam capturado um assassino.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca dos assassinatos de&nbsp;Nicole Brown Simpson, e do amigo dela, Ron Goldman, em 1992, a pol\u00edcia norte-americana recebeu diversas liga\u00e7\u00f5es sobre pessoas que diziam ter visto, ouvido e at\u00e9 se casado com o suposto criminoso, de acordo com&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.latimes.com\/archives\/la-xpm-1996-03-25-mn-51081-story.html\" target=\"_blank\">reportagem de 1996 do Los Angeles Times<\/a>. O ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson, ex-marido de Nicole, foi acusado e depois absolvido por um j\u00fari popular pelos crimes em 1995 e, tanto o caso como o julgamento foram muito midi\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTem casos de homicidas em s\u00e9rie ou coisas do tipo nos EUA e a pol\u00edcia recebe milhares de liga\u00e7\u00f5es de gente dizendo que viu alguma coisa, que foi ele que fez, e 99% era mentira\u201d, aponta o analista criminal e membro do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP) Guaracy Mingardi. \u201cO grande trabalho \u00e9 separar o joio do trigo e, se uma pessoa se apresentou [para confessar], tem que por gente em campo para ver, perguntar para gente do Amazonas. E se ele disse essas informa\u00e7\u00f5es, vamos perguntar como ele poderia saber de tal coisa que n\u00e3o saiu no jornal, porque se saiu no jornal qualquer um pode chegar l\u00e1 [na delegacia] e falar isso\u201d, explica. \u201cAgora, se ele tem algum detalhe a mais que n\u00e3o saiu na imprensa, a\u00ed voc\u00ea se comunica com quem est\u00e1 investigando para ver se \u00e9 verdade. Se tem alguma comprova\u00e7\u00e3o, apresenta [a pessoa] para a Justi\u00e7a, antes disso, n\u00e3o se fala sobre porque pode gerar o que a gente chama na pol\u00edcia de vender fuma\u00e7a, que s\u00f3 atrapalha a investiga\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse exemplo citado por Mingardi \u00e9 uma estrat\u00e9gia usada pela pol\u00edcia dos EUA: n\u00e3o divulgar determinados detalhes (chamados de \u201cchaves\u201d) sobre um crime ao grande p\u00fablico. Assim, no caso de pessoas que procuram a pol\u00edcia dizendo ter cometido um crime, os policiais s\u00f3 v\u00e3o come\u00e7ar a levar a hist\u00f3ria a s\u00e9rio e consider\u00e1-la que \u201cparece veross\u00edmil\u201d se ela mencionar detalhes reais que n\u00e3o foram divulgados pela imprensa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a&nbsp;<strong>Ponte<\/strong>&nbsp;perguntou \u00e0 delegada Vanesa Guimar\u00e3es, que faz a comunica\u00e7\u00e3o da Seccional Centro, sobre provas que Gabriel teria apresentado, ela respondeu: \u201cEle apresentou a oitiva [depoimento] dele que \u00e9 um meio de prova, \u00f3bvio, ele estava cheio de pap\u00e9is de todo o trajeto que ele percorreu e tem a oitiva do caminhoneiro, que inclusive foi colhida com a nossa interven\u00e7\u00e3o na Pol\u00edcia Civil de Goi\u00e1s, e essa testemunha confirmou toda a vers\u00e3o dele, de que trouxe ele de caminh\u00e3o, de que deu carona para ele\u201d. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/go\/goias\/noticia\/2022\/06\/23\/caminhoneiro-que-teria-dado-carona-a-suspeito-de-envolvimento-na-morte-de-bruno-pereira-e-dom-phillips-presta-depoimento-em-goias.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">depoimento do caminhoneiro \u00e0 Pol\u00edcia Civil de Goi\u00e1s, que confirmou ter dado a carona a Gabriel, tamb\u00e9m foi divulgado<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 a mesma coisa que eu falar para voc\u00ea que eu participei do assassinato do presidente John Kennedy e, depois do assassinato, eu me hospedei num hotel tal e te dou o recibo do hotel tal. Isso confirma que eu participei do assassinato ou tem alguma rela\u00e7\u00e3o?\u201d, questiona o advogado Bruno Salles, s\u00f3cio da Cavalcanti, Sion e Salles Advogados e primeiro secret\u00e1rio da dire\u00e7\u00e3o do Instituto Brasileiro de Ci\u00eancias Criminais (Ibccrim). \u201cParece que a pol\u00edcia queria dar um furo antes da imprensa\u201d. Furo, no jarg\u00e3o jornal\u00edstico, \u00e9 quando um ve\u00edculo ou jornalista publica uma informa\u00e7\u00e3o que os concorrentes n\u00e3o tinham, antes de todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Salles aponta uma \u201csubvers\u00e3o do processo penal\u201d quando, assim que \u00e9 colhido o depoimento, o primeiro ato da Pol\u00edcia Civil foi divulgar para a imprensa, depois convocar uma coletiva e avisar que pediu a pris\u00e3o tempor\u00e1ria de Gabriel antes de uma \u201cverifica\u00e7\u00e3o aprofundada\u201d. \u201cNessa sociedade do espet\u00e1culo que a gente est\u00e1 vivendo, nessa sociedade dos v\u00eddeos de notoriedade que geram poder e dinheiro, \u00e9 s\u00f3 a gente ver os casos do Gabriel Monteiro e do Delegado Da Cunha monetizando opera\u00e7\u00f5es, contamina as institui\u00e7\u00f5es\u201d, pontua. \u201cNa Alemanha, por exemplo, voc\u00ea n\u00e3o pode sequer filmar um preso ou divulgar informa\u00e7\u00f5es sobre ele, e aqui no Brasil esse \u00e9 um dos produtos mais explorados pela pol\u00edcia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o advogado explica que uma confiss\u00e3o n\u00e3o gera uma pris\u00e3o imediata nem uma condena\u00e7\u00e3o. \u201cSe a pessoa confessar, a pol\u00edcia tem obriga\u00e7\u00e3o de investigar o delito para que tenha provas que mostrem que aquela confiss\u00e3o \u00e9 algo corroborado por outras provas dos autos. Essa \u00e9 uma regra do C\u00f3digo de Processo Penal\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p>A auto-acusa\u00e7\u00e3o falsa tamb\u00e9m \u00e9 um crime previsto no artigo 341 do&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/decreto-lei\/del2848compilado.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">C\u00f3digo Penal<\/a>, com pena de deten\u00e7\u00e3o, de tr\u00eas meses a dois anos, ou multa. \u201cA auto-acusa\u00e7\u00e3o falsa ser um crime tem duas raz\u00f5es: pela pessoa querer atrapalhar uma investiga\u00e7\u00e3o ou proteger algu\u00e9m que realmente cometeu um crime e impedir de fato a pol\u00edcia de chegar \u00e0 real pessoa que cometeu o crime. Idealmente, para a administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, o que importa n\u00e3o \u00e9 prender algu\u00e9m, o que importa \u00e9 prender a pessoa que realmente cometeu o crime\u201d, pondera. \u201cO porqu\u00ea a pessoa est\u00e1 fazendo isso [auto-acusa\u00e7\u00e3o] tamb\u00e9m \u00e9 algo que tem que ser investigado, esse processo penal publicizado antes de se ter evid\u00eancias fortes, provas al\u00e9m de qualquer d\u00favida razo\u00e1vel, voc\u00ea incorre em uma situa\u00e7\u00e3o bastante temer\u00e1ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os especialistas apontam que, se uma pessoa diz que quer confessar algum crime, ela deve ser levada a uma autoridade de Pol\u00edcia Judici\u00e1ria, que pode ser a Pol\u00edcia Civil ou Pol\u00edcia Federal. Ela n\u00e3o \u00e9 presa, \u00e9 encaminhada a uma delegacia. O(a) delegado(a) colhe o depoimento dessa pessoa e passa a verificar essas informa\u00e7\u00f5es, podendo abrir um inqu\u00e9rito se for de compet\u00eancia dele, ou encaminhando a quem tem compet\u00eancia (no caso, a Pol\u00edcia Federal do Amazonas).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCom o depoimento, o delegado inicia uma investiga\u00e7\u00e3o e v\u00ea elementos que corroborem. Dar uma coletiva depois que se tem s\u00f3 um depoimento \u00e9 como encerrar a investiga\u00e7\u00e3o\u201d, critica Bruno Salles. \u201cOutra coisa \u00e9 ver se, diante das evid\u00eancias, se existem requisitos para uma pris\u00e3o cautelar, uma pris\u00e3o preventiva, em que a lei prev\u00ea provas de materialidade e ind\u00edcios de autoria. Voc\u00ea n\u00e3o pode prender uma pessoa com uma simples confiss\u00e3o porque nunca vai ser prova por si s\u00f3. Se a pessoa chega l\u00e1 [na delegacia], confessa o crime e mostra uma grava\u00e7\u00e3o dela matando algu\u00e9m, \u00e9 diferente, tem uma prova. Se apresenta a arma do crime, diz onde est\u00e1 o corpo, a\u00ed tem uma s\u00e9rie de outros elementos que mostram que a pessoa poderia ter participado de um delito\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>No depoimento obtido pela reportagem, Gabriel relatou que a morte de Bruno e Dom ocorreu no Rio Madeira, o maior afluente do rio Solim\u00f5es, que nasce na Bol\u00edvia, entra em Rond\u00f4nia, abrange a parte sul do Amazonas e tem a foz na parte central do estado, a mais de 1.200 km, em linha reta, do Rio Itacoa\u00ed, onde Bruno e Dom desapareceram. Ele ainda afirmou que os assassinatos aconteceram na comunidade Santa Isabel, mas no Amazonas n\u00e3o existe nenhuma \u201cSanta Isabel\u201d na regi\u00e3o do Vale do Javari \u2014 talvez se referisse ao munic\u00edpio de Santa Isabel do Rio Negro, no noroeste do estado, distante 1.000 km em linha reta da Terra Ind\u00edgena Vale do Javari. Ou se confundiu com a comunidade S\u00e3o Rafael, por onde as v\u00edtimas passaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro erro geogr\u00e1fico do depoimento de Gabriel \u00e9 sua rota de fuga. Ap\u00f3s o crime, ele teria viajado a Santar\u00e9m, no Par\u00e1, distante 1.800 km em linha reta do Vale do Javari, sem identificar a rota tortuosa que teria que seguir para chegar. De l\u00e1, teria voltado ao oeste para Manaus, capital do Amazonas, seguido para Rondon\u00f3polis, no Mato Grosso, e s\u00f3 ent\u00e3o partido de \u00f4nibus para S\u00e3o Paulo. \u00c9 um caminho extremamente dif\u00edcil, longo, demorado e caro de ser realizado, al\u00e9m de contraintuitivo \u2014 ainda mais para terminar se entregando na Pra\u00e7a da S\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do passeio, Gabriel ainda se contradisse em v\u00eddeos distribu\u00eddos \u00e0 imprensa, onde fala que teria espalhado pertences de Bruno e Dom pela mata (os objetos foram encontrados afundados no rio), e que teria ido \u00e0 regi\u00e3o onde ocorreu o crime fugindo do Comando Vermelho, que,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/nos\/vale-do-javari-onde-indigenista-e-reporter-desapareceram-e-alvo-de-cobica-do-comando-vermelho,70fd73842af2c2efce81b0945e16040dkd4jz744.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">segundo reportagens<\/a>, \u00e9 uma das fac\u00e7\u00f5es que disputam justamente o controle territorial no Vale do Javari.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Gabriel relatou que conheceu um dos suspeitos do duplo homic\u00eddio, Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado, havia uma semana e que ele teria lhe chamado para pilotar a embarca\u00e7\u00e3o que estavam quando bebiam em um bar, apesar de a investiga\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal apontar que o crime teria sido premeditado por Pelado em conjunto com sua fam\u00edlia em virtude da atua\u00e7\u00e3o de Bruno na regi\u00e3o da Terra Ind\u00edgena (TI) do Vale do Javari.&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.abraji.org.br\/indigenista-investigava-elo-entre-pesca-predatoria-na-ti-do-vale-do-javari-e-prefeitura-de-atalaia-do-norte\" target=\"_blank\">Reportagem do Projeto Tim Lopes, da Abraji<\/a>, apontou que, por meio de den\u00fancias dos ind\u00edgenas, \u201cBruno Pereira teria identificado o envolvimento de um secret\u00e1rio municipal e de ao menos tr\u00eas servidores nomeados pelo prefeito [de Atalaia do Norte] na invas\u00e3o da TI para pesca e ca\u00e7a predat\u00f3rias\u201d, um deles parente de Pelado.<\/p>\n\n\n\n<p>No depoimento de Gabriel, ele ainda se confunde sobre quem seria o jornalista, descrito como \u201cgringo\u201d, e Bruno, e que a motiva\u00e7\u00e3o de Pelado seria que o \u201cgringo\u201d teria \u201cmexido com a sua mulher\u201d e o outro \u201cmorreu de gra\u00e7a para n\u00e3o incrimin\u00e1-lo\u201d. Gabriel tamb\u00e9m diz que decidiu confessar o crime por estar com \u201csentimento de culpa\u201d e por estar em situa\u00e7\u00e3o de rua em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia depois, a assessoria da Pol\u00edcia Federal do Amazonas encaminhou nota declarando que a Justi\u00e7a da Comarca de Atalaia do Norte havia negado o pedido de pris\u00e3o tempor\u00e1ria de Gabriel. Ele chegou a ser levado \u00e0 Pol\u00edcia Federal de S\u00e3o Paulo para prestar depoimento, \u201cmas optou por exercer seu direito constitucional de permanecer calado\u201d. Depois, foi liberado \u201ctendo em vista que n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de ter participado dos crimes ora em apura\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que apresentou vers\u00e3o pouco cr\u00edvel e desconexa com os fatos at\u00e9 o momento apurados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/ponte.org\/tamojunto\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Ajude a Ponte!<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem procurou o Tribunal de Justi\u00e7a do Amazonas para questionar sobre o pedido negado. A assessoria disse que o processo tramita em segredo de justi\u00e7a, informando apenas que \u201cao analisar os autos,&nbsp;o representante do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual na Comarca opinou contr\u00e1rio ao pedido da autoridade policial\u201d e a ju\u00edza Jacinta Silva dos Santos, titular da Comarca de Atalaia do Norte,<strong>&nbsp;<\/strong>\u201cdecidiu pelo indeferimento do pedido por&nbsp;n\u00e3o estarem atendidos os requisitos legais exigidos para a decreta\u00e7\u00e3o de pris\u00e3o tempor\u00e1ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem a PF nem o MP deram entrevista para a&nbsp;<strong>Ponte<\/strong>. Quando saiu a nota do dia 24 de junho, a delegada Vanesa Guimar\u00e3es disse que a atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo em divulgar o caso n\u00e3o foi prematura. \u201cA gente tem que ter o nosso papel e qual era o papel da Pol\u00edcia Civil? O cara vem, se apresenta, diz que matou duas pessoas [no depoimento consta que pilotou o barco]. O nosso papel \u00e9 mant\u00ea-lo ali at\u00e9 isso ser apurado\u201d, declarou. \u201cEle foi entregue \u00e0 Pol\u00edcia Federal porque o inqu\u00e9rito \u00e9 da Federal porque, se n\u00e3o, estaria na estadual aguardando a apura\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o dele. \u00c9 assim que funciona, ainda mais num inqu\u00e9rito complexo como esse em que os fatos aconteceram em Manaus. N\u00e3o d\u00e1 para, em algumas horas, definir se a vers\u00e3o dele \u00e9 verdadeira ou n\u00e3o. Eu n\u00e3o quero julgar nada, mas acho que a vers\u00e3o dele tem que ser muito bem apurada, muito bem apurada. \u00c9 prematuro descartar totalmente porque tem que se entender por que esse homem aparece do nada, sem sinal nenhum de defici\u00eancia mental, e se declara autor de um crime grav\u00edssimo de repercuss\u00e3o internacional?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/ponte.org\/como-a-policia-civil-de-sp-quebrou-a-cara-ao-indicar-um-quarto-suspeito-das-mortes-de-bruno-e-dom\/\">https:\/\/ponte.org\/como-a-policia-civil-de-sp-quebrou-a-cara-ao-indicar-um-quarto-suspeito-das-mortes-de-bruno-e-dom\/<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reportagem de Jeniffer Mendon\u00e7a, para a Ponte Jornalismo, que contou com a contribui\u00e7\u00e3o do s\u00f3cio&nbsp;Bruno Salles Ribeiro Um homem, Gabriel Dantas Pereira, 26, procurou policiais militares na Pra\u00e7a da S\u00e9, centro da capital paulista, dizendo que havia participado do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, ocorrida no Vale do Javari, no [&hellip;]<\/p>","protected":false},"author":5,"featured_media":944,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-943","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/943","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=943"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/943\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":950,"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/943\/revisions\/950"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/944"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}