{"id":360,"date":"2017-11-23T08:13:43","date_gmt":"2017-11-23T10:13:43","guid":{"rendered":"https:\/\/sallesribeiro.com\/?p=360"},"modified":"2022-07-08T15:11:40","modified_gmt":"2022-07-08T18:11:40","slug":"so-um-jogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/so-um-jogo\/","title":{"rendered":"S\u00f3 um jogo"},"content":{"rendered":"<p>O resultado do jogo n\u00e3o foi num\u00e9rico, mas sim sentimental.<\/p>\n\n\n\n<p>No longa-metragem &#8220;O ano em que meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias&#8221; conta-se a hist\u00f3ria do menino Mauro, que, durante o regime militar, acaba sob os cuidados de um estranho ap\u00f3s seus pais serem presos por &#8220;comportamento subversivo&#8221;. Quem l\u00ea essa pequena sinopse pode pensar que o filme trata apenas de pol\u00edtica. Mas quem assistiu ao filme sabe muito bem que ele trata \u00e9 de futebol.<\/p>\n\n\n\n<p>Inspirado na pr\u00f3pria hist\u00f3ria do diretor Cao Hamburguer, o filme se passa em 1970, ano da conquista do Tricampeonato Mundial de Futebol pelo Brasil. Tendo como cen\u00e1rio a Copa do Mundo, o filme mostra com toda a sutileza do diretor o significado cultural que esse esporte tem na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um momento marcante do filme, um grupo de pessoas consideradas subversivas pelo regime militar comemora um gol da Sele\u00e7\u00e3o da Tchecoslov\u00e1quia, em apoio ao regime socialista. Algumas cenas depois, esse mesmo grupo de pessoas comemora com muito mais intensidade e vibra\u00e7\u00e3o um gol do Brasil, comungando com o todo o pa\u00eds a conquista da Sele\u00e7\u00e3o Canarinho.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se ignora o papel que o futebol tem no crescimento dos movimentos ufanistas nacionais. Tamb\u00e9m n\u00e3o se descura para o fato de que foi sim usado como o \u00f3pio do povo. Nada mais natural. Como qualquer fen\u00f4meno cultural, \u00e9 ele inexoravelmente pol\u00edtico. E como a democracia corintiana viria a escancarar anos depois, \u00e9 pol\u00edtico e subversivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso, uma pelada de final de semana tenha despertado tanto interesse e curiosidade. Talvez seja mesmo por isso que a imprensa tenha especulado, imaginado e divulgado tantas &#8220;not\u00edcias&#8221; sobre uma reuni\u00e3o entre amigos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se ignora que em um dos times havia Chico Buarque, cantor, compositor, escritor, dramaturgo, patrim\u00f4nio nacional e, acima de tudo, jogador emblem\u00e1tico do ainda mais emblem\u00e1tico Polytheama. Mas a verdade \u00e9 que o Chico joga bola h\u00e1 muito tempo, no mesmo lugar, com as mesmas pessoas. E ningu\u00e9m parece incomod\u00e1-lo, na maioria das vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Buarque \u00e9 um ser pol\u00edtico, dos mais importantes para o Brasil. \u00c9 e sempre foi um subversivo. Mas do outro lado, na equipe advers\u00e1ria, \u00e9 onde estava mesmo a subvers\u00e3o. Um time composto em sua maioria por advogados. Alguns que se conheciam a muito tempo, outros que jamais haviam se visto antes da partida. E desde sempre &#8211; e com significativo relevo nos dias atuais &#8211; a advocacia \u00e9 uma das atividades mais subversivas que j\u00e1 existiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda piores do que advogados, se reuniam naquele time uma profus\u00e3o de advogados criminalistas. Se o advogado \u00e9 um ser subversivo, o advogado criminalista \u00e9 visto como a pr\u00f3pria subvers\u00e3o. Aquela criatura maldita, cuja exist\u00eancia s\u00f3 \u00e9 compreendida, pela maioria da sociedade, quando diante de uma acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que n\u00e3o eram s\u00f3 advogados. Havia ali tamb\u00e9m economistas, estudantes e jornalistas. Mas aquele time s\u00f3 existia por um motivo pret\u00e9rito; pela comum preocupa\u00e7\u00e3o com as prerrogativas da advocacia e pelos rumos dos Estado de Direito.<\/p>\n\n\n\n<p>A modernidade \u00e9 curiosa e de fina ironia. Se antes a pelada de domingo era um evento agregador, dessa vez foi a tecnologia que aglutinou tantas pessoas, de tantas partes do pa\u00eds. Um grupo de WhatsApp, no qual diversas pessoas &#8211; em sua maioria advogadas e advogados &#8211; passaram a discutir sobre variados temas, sobre as principais not\u00edcias e, inclusive, sobre futebol.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1gora pode ser virtual. Mas, ainda assim, rumores surgiam sobre a reuni\u00e3o dos advogados em um grupo de discuss\u00f5es. Nada mais subversivo. Cidad\u00e3os, advogados, advogados criminalistas, se reunindo novamente depois de um sono let\u00e1rgico em que suas prerrogativas foram vilipendiadas. As prerrogativas, que s\u00e3o do advogado, mas que servem acima de tudo ao cliente, que \u00e9 quem \u00e9 protegido, em \u00faltima inst\u00e2ncia, contra viola\u00e7\u00f5es ilegais. Um n\u00edvel de subvers\u00e3o quase intoler\u00e1vel em uma sociedade que se acostumou ter suas costas chicoteadas sem ousar olhar nos olhos de seus algozes.<\/p>\n\n\n\n<p>A imprensa chegou a noticiar que a partir daquele f\u00f3rum seria fundado um instituto. Depois disse que esse instituto n\u00e3o seria mais fundado. Mas descobriu o jogo de futebol. Talvez fosse a falta de esc\u00e2ndalos da semana. Talvez fosse o n\u00edvel de subvers\u00e3o. A partida estava anunciada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos bastidores, os juristas-jogadores estavam compenetrados. Espalhados pelos quatro cantos do pa\u00eds organizavam treinos para definir a escala\u00e7\u00e3o e a t\u00e1tica. Muitas vezes se ouvia a frase: &#8220;h\u00e1 mais de 10 anos n\u00e3o jogo futebol&#8221;. O cheiro de c\u00e2nfora dos in\u00fameros aeross\u00f3is utilizados aumentava a cada treino. Contra\u00e7\u00f5es, estiramentos, luxa\u00e7\u00f5es, hematomas eram compartilhados como testemunho do desafio e da supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfrentar o Polytheama fez esses amigos esquecerem um pouco a quadra sombria pelo qual atravessa o pa\u00eds. Como o gol do Brasil, comemorado pelos subversivos no filme de Cao Hamb\u00farguer. T\u00e3o preocupados com o futuro das garantias fundamentais esquecidas em prol de um Tribunal Popular, agora eram eles que se permitiam descuidar desses assuntos t\u00e3o caros.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles rejuvenesciam. A cada treino corriam e se esfor\u00e7avam mais. Ativos defensores dos preceitos constitucionais, agora saiam da aposentadoria futebol\u00edstica e se alegravam a cada contus\u00e3o. E rejuvenesciam diante da perspectiva de enfrentar um \u00eddolo. E com o rejuvenescimento, at\u00e9 mesmo esses impass\u00edveis e destemidos professores e advogados experimentaram a inseguran\u00e7a quando os rumores maldosos quase cancelaram a partida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a partida ocorreu. Dos quatro cantos do pa\u00eds, esses amigos rumaram ao Rio de Janeiro para encontrar um dos quatro s\u00e1bados chuvosos do ano na Cidade Maravilhosa. De l\u00e1 um \u00f4nibus at\u00e9 o local da partida. Camisetas prontas, defini\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas preparadas, s\u00f3 a dist\u00e2ncia separava aqueles cada vez mais jovens senhores da t\u00e3o esperada partida.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando ao local, Chico Buarque, ele mesmo, esperava na porta no \u00f4nibus, cumprimentando cada um dos presentes e saudando a empolga\u00e7\u00e3o com a qual ali se apresentavam. Algumas fotos e fim do &#8220;homem cordial&#8221;. Todos ao vesti\u00e1rio para se prepararem para a partida.<\/p>\n\n\n\n<p>A partida se iniciou e transcorreu em baixo de chuva. Como uma alegoria dos momentos recentes, em que qualquer felicidade parece vir com seus condicionantes. Talvez, por outro lado, fosse apenas uma met\u00e1fora de que as adversidades &#8211; e quantas foram &#8211; n\u00e3o poderiam minar o desejo de uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O placar a imprensa noticiou. Mas o resultado do jogo n\u00e3o foi num\u00e9rico, mas sim sentimental. Em dado momento da partida, olhei ao redor e vi Chico Buarque procurando se posicionar no ataque. A bola saiu e tive aquele momento sublime de contempla\u00e7\u00e3o, que algumas vezes acontecem em nossa vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria de narrar o nome de cada um dos colegas de time que se encontravam em campo e fora dele. Gostaria tamb\u00e9m de delinear cada um de nossos advers\u00e1rios. Gostaria de pontuar cada uma das mulheres que estavam ali na lateral e que foram as maiores respons\u00e1veis por tudo aquilo acontecer: que logo estejam voc\u00eas e campo e n\u00f3s na torcida. Mas cabe aqui apenas lembrar do que senti naquele. Senti mesmo a subvers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A subvers\u00e3o daquela partida estar acontecendo. A subvers\u00e3o daquelas pessoas ousarem se encontrar. A subvers\u00e3o de termos formado um time de futebol. A subvers\u00e3o de termos nos encontrado. A subvers\u00e3o de defender a democracia e o Estado de Direito. A subvers\u00e3o de defender as prerrogativas dos advogados. A subvers\u00e3o de termos sidos tachados e rotulados e ainda assim, termos mantido nossos ideais.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela subvers\u00e3o que invadia as quatro linhas, que empolgava a torcida e que, no fundo, era apenas mais uma subvers\u00e3o daqueles que sempre foram tachados e rotulados como inimigos da sociedade e inimigos da justi\u00e7a. Sabemos que n\u00e3o somos. Sabemos que justi\u00e7a \u00e9 diferente de arb\u00edtrio, desse o qual somos ferrenhos inimigos.<\/p>\n\n\n\n<p>O jogo n\u00e3o tinha \u00e1rbitro ou juiz. E assim, aquela partida terminou, mas jamais se ouviu o apito final.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Este artigo foi originalmente publicado em <a class=\"docs-creator\" href=\"https:\/\/www.migalhas.com.br\/depeso\/269617\/so-um-jogo\">https:\/\/www.migalhas.com.br\/depeso\/269617\/so-um-jogo<\/a><\/em> <em>por Bruno Salles Ribeiro<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O resultado do jogo n\u00e3o foi num\u00e9rico, mas sim sentimental. No longa-metragem &#8220;O ano em que meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias&#8221; conta-se a hist\u00f3ria do menino Mauro, que, durante o regime militar, acaba sob os cuidados de um estranho ap\u00f3s seus pais serem presos por &#8220;comportamento subversivo&#8221;. 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