{"id":331,"date":"2021-02-06T07:57:09","date_gmt":"2021-02-06T10:57:09","guid":{"rendered":"https:\/\/sallesribeiro.com\/?p=331"},"modified":"2022-07-08T15:32:30","modified_gmt":"2022-07-08T18:32:30","slug":"prova-ilicita-no-processo-penalproximos-capitulos-do-caso-vaza-jato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sallesribeiro.com\/en\/prova-ilicita-no-processo-penalproximos-capitulos-do-caso-vaza-jato\/","title":{"rendered":"Prova il\u00edcita no processo penal: pr\u00f3ximos cap\u00edtulos do caso &#8220;vaza jato&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Nos c\u00edrculos jur\u00eddicos, \u00e9 praticamente um consenso que provas obtidas por meios il\u00edcitos n\u00e3o podem ser usadas para acusar, por for\u00e7a de mandamento constitucional. A veda\u00e7\u00e3o da prova il\u00edcita, distante de ser uma filigrana processual formalista, \u00e9 um alicerce do Estado de Direito sem o qual o sistema de justi\u00e7a transmuda-se em mera encena\u00e7\u00e3o para o exerc\u00edcio arbitr\u00e1rio de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Paradoxalmente, esse consenso tentou ser desbastado pelo bra\u00e7o de publicidade da for\u00e7a tarefa da lava jato em Curitiba, que, entre as famigeradas &#8220;10 medidas contra a corrup\u00e7\u00e3o&#8221;, elencava a necessidade de &#8220;Ajustes nas Nulidades penais&#8221;. Um eufemismo que eclipsava a inten\u00e7\u00e3o de criar hip\u00f3teses em que provas il\u00edcitas poderiam ser convalidadas. Felizmente, prosperaram os princ\u00edpios da Rep\u00fablica Federativa do Brasil, e n\u00e3o os de Curitiba. Ap\u00f3s amplo processo de consulta p\u00fablica, o Congresso Nacional recha\u00e7ou as propostas legislativas nesse sentido, resguardando com o pacote anti-crime a higidez do processo penal democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, por\u00e9m, que o feiti\u00e7o voltou-se contra o feiticeiro:&nbsp;protagonistas das conversas reveladas pela opera\u00e7\u00e3o spoofing procuram encontrar justificativas para inviabilizar o conhecimento e o uso das mensagens trocadas no curso de inqu\u00e9ritos e processos, ainda que em favor da defesa de pessoas que foram diretamente impactadas pela rela\u00e7\u00e3o prom\u00edscua e orquestrada entre Minist\u00e9rio P\u00fablico e Ju\u00edzo.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, tamb\u00e9m \u00e9 consenso entre os maiores estudiosos do processo penal brasileiro que, ainda que obtidas por meios il\u00edcitos, elementos de prova podem ser utilizados no processo penal, diante da constata\u00e7\u00e3o de que essas fontes de informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o meios singulares de demonstra\u00e7\u00e3o da viola\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais do r\u00e9u ou acusado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primoroso artigo publicado no&nbsp;<em>Livro das Suspei\u00e7\u00f5es<\/em><a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2021-fev-06\/opiniao-prova-ilicita-processo-penal-proximos-capitulos#_ftn1\">[1]<\/a>, Juliano Breda recapitula e atualiza a doutrina sobre o tema (<em>Badar\u00f3<\/em>,&nbsp;<em>Casara<\/em>,&nbsp;<em>Gomes Filho<\/em>,&nbsp;<em>Grinover<\/em>,&nbsp;<em>Lopes Filho<\/em>,<em>&nbsp;Nucci<\/em>,&nbsp;<em>Scarance Fernandes<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Tavares<\/em>), anotando que &#8220;se admite a prova il\u00edcita em favor do acusado, a fim de prevenir uma condena\u00e7\u00e3o injusta pela inexist\u00eancia ou atipicidade do fato, e, tamb\u00e9m, em face da viola\u00e7\u00e3o ao devido processo legal&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essas considera\u00e7\u00f5es iniciais, \u00e9 poss\u00edvel que se analise de maneira t\u00e9cnica a validade dos elementos de prova obtidos pela&nbsp;indigitada opera\u00e7\u00e3o spoofing. No curso das investiga\u00e7\u00f5es, foram apreendidos os backups de di\u00e1logos de procuradores da Rep\u00fablica e do ex-juiz da opera\u00e7\u00e3o lava jato. Do conte\u00fado de mencionados di\u00e1logos, podem emergir duas consequ\u00eancias jur\u00eddicas de refra\u00e7\u00e3o distinta. Por um lado, evidencia-se um poss\u00edvel ajuste entre acusa\u00e7\u00e3o e juiz que mina por completo a validade da presta\u00e7\u00e3o jurisdicional, ante a quebra da imparcialidade. Por outro, emergem suspeitas de poss\u00edveis il\u00edcitos praticados pelos envolvidos nas conversas entabuladas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse \u00faltimo caso, naturalmente, n\u00e3o se pode advogar qualquer outra consequ\u00eancia a n\u00e3o ser a nulidade das provas. Em que pese o Superior Tribunal de Justi\u00e7a tenha extensa jurisprud\u00eancia, de vi\u00e9s pouco garantista, no sentido de que as provas obtidas de maneira fortuita podem ser convalidadas, a nosso sentir os procuradores e o juiz, de forma alguma, poderiam ser acusados criminalmente com base nas mensagens que trocaram, na medida em que mencionadas evid\u00eancias teriam sido obtidas por meio criminoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, qualquer acusado criminalmente que possa se valer de mencionadas informa\u00e7\u00f5es como prova de sua inoc\u00eancia ou de viola\u00e7\u00f5es \u00e0s regras do processo&nbsp;tem o direito de acess\u00e1-las e de utiliz\u00e1-las, l\u00edcita e validamente, em um processo penal.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que \u00e9 mais interessante. A valora\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias jur\u00eddicas das trocas de mensagens ora reveladas n\u00e3o ser\u00e1 feita por seus protagonistas, mas sim pelas partes atuantes nos eventuais processos em que vierem a ser apresentadas. Espera-se, dessa vez, com a necess\u00e1ria equidist\u00e2ncia e respeito aos corol\u00e1rios do devido processo legal.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma terceira dimens\u00e3o, que se amplia a partir de agora, consiste em acompanhar os desdobramentos da nova leva de divulga\u00e7\u00f5es para al\u00e9m do universo dos investigados e r\u00e9us diretamente atingidos pela lava jato. Como se deu nos grandes esc\u00e2ndalos de revela\u00e7\u00e3o de dados comprometedores, como&nbsp;<em>Wikileaks<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Panama Papers<\/em>, natural que outras pessoas reclamem legitimidade para pedir provid\u00eancias em raz\u00e3o das grav\u00edssimas ilegalidades desnudadas, na esteira do of\u00edcio j\u00e1 encaminhado pela Presid\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A briga vai ser boa e \u00e9 extremamente relevante do ponto de vista da constante necessidade de aperfei\u00e7oamento das institui\u00e7\u00f5es. Embora n\u00e3o reflita o comportamento t\u00e9cnico que em regra caracteriza a atua\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, os bastidores da lava jato precisam ser submetidos a escrut\u00ednio p\u00fablico para que n\u00e3o se repitam seus m\u00e9todos. Esse aprendizado passa necessariamente pela invalida\u00e7\u00e3o dos resultados obtidos fora das regras do jogo, de modo a desencorajar essa forma de proceder.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Este artigo foi originalmente publicado em <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2021-fev-06\/opiniao-prova-ilicita-processo-penal-proximos-capitulos\">https:\/\/www.conjur.com.br\/2021-fev-06\/opiniao-prova-ilicita-processo-penal-proximos-capitulos<\/a> por Bruno Salles Ribeiro e Dora Cavalcanti.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos c\u00edrculos jur\u00eddicos, \u00e9 praticamente um consenso que provas obtidas por meios il\u00edcitos n\u00e3o podem ser usadas para acusar, por for\u00e7a de mandamento constitucional. 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